sexta-feira, 27 de julho de 2012

Seção "Grandes Mestres das Bandas": Altamiro Firmino Tolentino


Altamiro Firmino Tolentino nasceu no dia 27 de setembro de 1931, na cidade de Rio Espera, Minas Gerais. Iniciou sua carreira musical desde os sete anos de idade, como músico e discípulo de seu pai, então maestro da União Musical Nossa Senhora das Graças em Conselheiro Lafaiete, onde mais tarde passaria a regente titular, desde a década de 1950. 

A partir de então, atuou como maestro, formando músicos nas cidades de São Brás do Suaçuí, Entre Rios de Minas, Belo Horizonte, Juiz de Fora e Piranga. Suas composições e arranjos, espalhados por todo o Estado de Minas Gerais, muito enriquecem o repertório das bandas pelas quais passou, tais como os dobrados "José Áfla de Queiroz" e "Bandinha do Brás", de sua autoria, e inúmeros arranjos de músicas populares, tais como: "Flashdance", "What's a Woman" e "Hey!".

Altamiro Tolentino faleceu em 29 de julho de 2006 na cidade de Conselheiro Lafaiete, também em Minas Gerais.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Seção "Grandes Mestres das Bandas": Felinto Lúcio Dantas


* 23/3/1898 Carnaúba dos Dantas, RN
+11/9/1986 Carnaúba dos Dantas, RN


Biografia

Compositor. Aprendeu as primeiras lições musicais com um primo. Compôs sua primeira música aos 17 anos. Sempre trabalhou como agricultor.

Dados Artísticos

Nascido no Sertão do Seridó, compôs valsas, mazurcas, dobrados e peças sacras. Uma parte do seu repertório está registrada em partituras que se encontram em mãos da família, em arquivo pessoal. Em 1978, o Centro Cultural Mobral gravou em um LP duplo, algumas de suas obras, contando com a participação do maestro Radamés Gnattali. Em 1982 gravou depoimento para o programa "Memória viva", da TV Universitária. Em 1983, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Ufrn) gravou outras de suas composições em um LP editado naquele ano. Em 1997 teve a música sacra "A quinta novena", executada em missa na Catedral do Rio de Janeiro, com a presença do Papa João Paulo II. Em 1999, por ocasião das comemorações dos 400 anos da fundação da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, teve sua composição "Estréia", gravada pelo Quinteto Natal Metais no CD "Nação Potiguar".

Obras

Agnus dei • Ana Medeiros Dantas • Ave Maria • Credo • Culpa e perdão • Dobrado Caetano Dantas • Dobrado Flávio Lúcio Dantas • Dobrado Francisco Lúcio Dantas • Dobrado Joaquim Lúcio Dantas • Dobrado Mobral • Dobrado Paulo Lúcio Dantas • Estréia • Francisco Lúcio Dantas • Glória • Hino do centenário de Caicó (c/ José Lucas de Barros) • Kyrie • Mobral • Nilda Medeiros Dantas • Salutaris • Sanctus • Valsa do centenário (c/ José Lucas) • Valsa Lúcia Dantas • Valsa Maria de Fátima Dantas • Valsa Maria do Carmo • Valsa Tereza Maia • Valsa Terezinha Dantas



Seção "Grandes Mestres das Bandas": Antônio Pereira Dantas (Tonheca Dantas)




O soldado músico da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte - ANTÔNIO PEREIRA DANTAS – “Tonheca Dantas", natural de Carnaúbas dos Dantas-RN, nascido a 18 de junho de 1840. O musico e regente Tonheca Dantas ganhou projeção nacional pelo seu talento.

Em 1898, Tonheca Dantas foi morar em Natal, onde fez teste para a Banda da Polícia Militar, passando imediatamente a ser regente. Em 1903, migra para Belém do Pará. Lá, foi contratado como músico da Banda do Corpo de Bombeiros, uma das mais famosas do País na época.

De volta ao Nordeste em 1908, esse regente, que era totalmente autodidata e tinha o clarinete como seu instrumento preferido, trabalhou em Alagoa Grande e Alagoa Nova, ambas no Estado da Paraíba. Depois, foi para Santana do Matos, também ensinar e reger bandas. Em 1920, trabalhou na banda da Polícia Militar, em João Pessoa-PB. Em 1932, Tonheca volta para Natal, aonde vai até a sua morte, a 7 de fevereiro de 1940, que se deu, ironicamente, num sábado de carnaval.

Trabalhou em várias cidades do Brasil, sempre regendo bandas de música. Daquelas que ainda faziam apresentações em coretos de pracinhas, nas tardes de domingo, em que todo mundo ia assistir. Tonheca Dantas como era mais conhecido, foi um potiguar que muito deu orgulho ao seu povo. Só que a maioria tem memória curta. E, aos poucos, ele foi sendo esquecido, seu valor como mestre na música foi-se anunciando, empoeirando e ficando apenas guardado em arquivos dos lugares onde trabalhou.

Em 1998, o professor historiador da UFRN, Cláudio Galvão, escreveu o livro a desfolhar saudades – Uma Biografia de Tonheca Dantas.

Alguns fatos pitorescos da vida desse músico são relatados no livro de Cláudio. Sua pesquisa para escrever o livro durou cerca de 3 anos. Os filhos ainda vivos de Tonheca, Antônia Dantas da Silva e Antonio Pedro Dantas Filho, muito contribuíram com suas memórias para a execução desse trabalho. O escritor também precisou viajar para Belém do Pará, onde recolheu material para suas pesquisas.

O livro fala de alguns detalhes interessantes sobre o reconhecimento do trabalho de Tonheca. É o caso das valsinhas e marchinhas compostas por Tonheca Dantas, as quais foram ouvidas por muita gente direto da BBC de Londres durante a Segunda Guerra Mundial. A valsinha mais conhecida do maestro é ROYAL CINEMA, composta em 1913, para ser tocada durante as sessões cinematográficas no Cinema Royal, em São Paulo. Essa valsinha foi editada pela Casa Bevilacqua, no Rio de Janeiro e está disponível para músicos e pesquisadores da música brasileira.

É um verdadeiro clássico da música nacional, tocada em bailes, saraus, solenidades ou em qualquer outro lugar onde fosse possível colocar uma bandinha de música e um regente inspirado da época de ouro da música potiguar. Embora poucos conheçam atualmente os acordes da valsa famosa, ela sempre despertará a emoção dos que a escutam hoje em dia em algum concerto, seja em que sala for.

Tonheca Dantas faleceu com 100 anos, no 7 de fevereiro de 1940, doente e como um simples soldado da gloriosa e amada Polícia Militar do Rio Grande do Norte.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Seção "Grandes Mestres das Bandas": Antônio Carlos Costa Vieira (Dequinha)


  
Antônio Carlos Costa Vieira nasceu no dia 06 de junho de 1954, na cidade de Cristiano Otoni, Minas Gerais, em uma renomada família de músicos. Sua mãe, Maria Helena Vieira Costa, foi uma grande musicista e compositora, começou a compor aos 13 anos, compunha valsas, choros e cantos religiosos e se apresentava em igrejas e teatros da época. 

Aos doze anos, Antônio Carlos começou a estudar música com seu avô, Antônio Fernandes Costa, músico, compositor e ganhador do Concurso Nacional de Maestros da Rádio Record no ano de 1954, em São Paulo. Aos treze anos, compôs sua primeira obra. Em 1975, trabalhou como regente na Sociedade Musical Santa Cecília de Conselheiro Lafaiete. No ano de 1981, foi estudar música com o maestro, pianista, violinista e poeta Euclides de Araújo na cidade de São Sebastião, no estado de São Paulo. Lá atuou como músico, compositor e arranjador. Tocou em concertos, bailes de carnavais, casamentos e em clubes da cidade. 

Mais tarde, no ano de 1985, com mais experiência, voltou para a cidade de Cristiano Otoni e assumiu a regência da Sociedade Musical Barão do Rio Branco, onde também ministrava aulas de música com o objetivo de formar músicos para a banda. Nesta época, Antônio Carlos formou quase 100 músicos com passagem pela banda. Para celebrar este momento de novo ânimo a banda, e como incentivo aos músicos, ele compôs o dobrado “Os Iniciantes”, em homenagem aos recém-integrantes da banda. 

Em 1985, foi convidado pelo prefeito para assumir a Corporação Musical Santa Cecília e ministrar aulas de música na cidade de Carandaí. Em 1986, trabalhou como regente e professor de música na Corporação Musical Divino Espírito Santo, em Lamim, Minas Gerais. No ano de 2006, foi convidado a reerguer a Corporação Musical Lira São José, na cidade de Ressaquinha e, em menos de um ano, conseguiu realizar a primeira apresentação desta Corporação.
         
Ao longo de sua carreira, Antônio Carlos Costa Vieira formou muitos músicos nas cidades que trabalhou, compôs mais de 100 peças, dentre elas: dobrados, valsas, choros, sambas, músicas sacras e peças para coral. Tem enviado seus arranjos para muitas cidades de Minas Gerais e de outros estados. Hoje, ele atua como regente e professor de música na Corporação Musical Santa Cecília e Sociedade Musical Barão do Rio Branco nas cidades de Carandaí – MG e Cristiano Otoni – MG, respectivamente.

Colaboração e agradecimentos: Mariza Helena Mateiro Vieira, flautista e filha do maestro Antônio Carlos, que cedeu esta biografia.

Banda de Música mais antiga do Brasil: Corporação Musical Euterpe (Pindamonhangaba - SP)

Pinda: Os 184 anos da Euterpe, banda mais antiga do Brasil e quarta da América



Espalhando lirismo pelo ar, Corporação Musical Euterpe, a banda de música mais antiga do Brasil,  representa um símbolo vivo da tradição de seu povo. É lembrada sempre como a mensageira da poesia do lugar onde nasceu, por meio de retretas na praça ou no caminhar garboso de seus músicos pelas ruas da “Princesa do Norte”.

A corporação musical que é a mais antiga do Brasil em atividade e a quarta da América, continua despertando o interesse das novas gerações para a prática da música de qualidade e esse poder de rejuvenescimento é o segredo de sua longevidade.

É atribuída ao Maestro João Batista de Oliveira, conhecido por João Pimenta no dia 22 de agosto de 1825 a fundação da Euterpe, banda de música que se mantém acesa, nobre, fascinante e jovem.

Passou por vários momentos de reestruturação, com Joaquim Gomes de Araújo (avô do maestro João Gomes de Araújo) em 1848. Mais tarde, Américo José de Farias, e depois João Antonio Romão também tiveram presenças significativas na história da Euterpe (do grego, deusa da música).

Em 1948, Leão Borges (médico e capitão do Exército) reanimou os músicos ao doar novos uniformes e novos instrumentos. Em 1954, o major Mário Agnelo Lacerda (tenente na época) deu uma nova dinâmica à corporação.
Uma história invejável

A história é rica de grandes e gloriosos momentos. A Euterpe já tocou no Rio de Janeiro a convite do Imperador do Brasil D. Pedro II e para o então governador Jânio Quadros em 1958.
Participou de um dos mais famoso programas de rádio que existiu, o “Lira de Xopotó”, da extinta Rádio Nacional que tinha a sede na cidade do Rio de Janeiro, essa apresentação memorável foi no dia 7 de março de 1964.
Para manter-se jovem e atraente aos novos músicos, o repertório é atualizado e adequado para seu tempo com os tradicionais dobrados, o maxixe, samba e outros ritmos da atualidade.
Enquanto muitas bandas morreram, a Euterpe luta para manter-se viva. Pela história que tem pra contar, sua existência é fundamental porque documentou boa parte da história e cultura de Pindamonhangaba e do Brasil
Luta pela sobrevivência
Sendo a Corporação Musical Euterpe declarada de utilidade pública em 1958, pelo então Governador Jânio Quadros, e incluída como acervo histórico do município em 1990 (lei orgânica municipal), seria redundante afirmar que a Euterpe tem que sobreviver. Isso é fato! Missão deixada por antepassados para que as gerações futuras tenham também um comprometimento com a banda que já tocou para barões e viscondes, governadores, e até imperadores. 
Qual outra entidade pode ostentar tantas primazias?
E para continuar sempre jovem, atualizada, dinâmica, sobeja e orgulhosa de sua rica história, a banda conta com a união de esforços de todos os segmentos da sociedade. 
A Euterpe não pode mais passar por situações constrangedoras como a de não ter recursos para a renovação de instrumentos, para troca de indumentária ou falta de transporte para apresentações em outras localidades
O “Projeto Orfeu, uma semente para o futuro”, poderá garantir a sobrevivência da entidade, enquanto promove a inclusão social. Preparada como signatária para receber seus alunos e desenvolver-lhes o sentimento de cidadania, civismo e amor pela música, a Euterpe tem condições de continuar desafiando o tempo e preenchendo os ares com suas maviosas melodias.
Projetos sociais futuros

A Corporação Musical Euterpe tem acalentado vários projetos sociais, dentre eles, o “Projeto Orfeu, uma semente par ao futuro”. A atual diretoria da Euterpe acredita piamente que um patrimônio como esse que representa a quase bi-centenária corporação, necessita de constante oxigenação.
Alem disso, é possível um trabalho paralelo com as comunidades, fazendo com que a criança ou o jovem sinta prazer em aprender música de qualidade, ficando assim distante do submundo que representa hoje a vida nos bairros

Pensando assim, um ideal da diretoria da Euterpe tem como meta trazer para o convívio da música as crianças e adolescentes que residem em bairros de periferia, ou ainda absorver jovens músicos que se desenvolveram no Projeto Guri, mas que agora não encontram locais e oportunidades para darem continuidade a um aprendizado.

O projeto já é desenvolvido em parte com o curso básico de teoria musical, mas essa iniciativa esbarra na falta de uma sede com espaço maior, o que impede que se trabalhe com um número grande de aprendizes.

A solenidade de comemoração dos 184 anos da Corporação Musical Euterpe aconteceu na noite de ontem, 22 de agosto, nas dependências da Prefeitura de Pindamonhangaba.
Fonte - Reportagem de 23 de Agosto de 2009

Vídeo 44: Campanera - Banda do Samouco

terça-feira, 10 de julho de 2012

Seção "Grandes Mestres das Bandas": Heráclito Paraguassu Guerreiro

Heráclito Paraguassu Guerreiro nasceu na cidade de Maragogipe-BA, em 13 de março de 1877 e faleceu na mesma em 18 de maio de 1950, filho do senhor João Primo Guerreiro. Com 12 anos de idade, entrou na escola de música da Filarmônica Terpsícore Popular de Maragogipe em que discretamente começou a aprender a arte musical contrariando a vontade de seus pais. A caixa foi o seu primeiro instrumento depois de um ano. Em 1895 fundou, aos 18 anos o grupo “Harpa Mariana” a qual foi regente. Autodidata, mas com potencial espetacular, Heráclito destaca-se mais e mais quando inicia as suas composições.
Em 10 de setembro de 1910, quando agravou o estado de saúde do senhor Theodoro Borges da Silva que foi um dos fundadores, primeiro e atual regente da Terpsícore na época, foi concedida a Heráclito a posse da regência, tendo ele fundido o grupo “Harpa Mariana” a Terpsícore, criando então nova fase com progresso para a filarmônica que regeu por quase 40 anos.
Suas composições são indiscutivelmente exímias obras de arte, tendo Heráclito chegado a compor mais de 600 partituras entre elas dobrados, marchas, fantasias, novenas, rapsódias, valsas, boleros, sinfonias, e etc. Em sua obra temos como destaque algumas de suas composições como: O Rebate, Ronaldo Souza, Cap. Juracy Magalhães, O Registrado, Oscar Guerreiro, Hybernon Guerreiro, Ao Passeio, Filoca Santana, Liliu, Chuva de Ouro, Bendita, Virgem de Sión, dobrado “América” que no meio do trio tem o canto do sabiá , dobrado “Os corujas” que em meio a sua execução tem o gorjeio da coruja, O Rabi da Galiléia e a Canção no Saara que ganharam premiações na Alemanha. A música do nosso compositor é conhecida nacionalmente e internacionalmente, ouvida no Norte da América e pela Europa.

Seção "Grandes Mestres das Bandas": Joaquim Pereira de Oliveira


O músico e compositor Joaquim Pereira de Oliveira, nasceu na pequena cidade de Caiçara-PB, no ano de 1910. Aos 8 anos de idade, Joaquim trabalhava na marcenaria do seu pai, José de Oliveira e Silva, mas conhecido por José Faustino, que era marceneiro e músico. Além da arte da marcenaria, que ja aprendia com o pai, o menino Joaquim manifestou o desejo de aprender música, tendo iniciado o aprendizado com aulas de flauta e clarinete. Com pouco tempo de aprendizagem, Joaquim, de posse de seu clarinete, já acompanhava o pai, abrilhantando as festas profanas e religiosas do município de Caiçara, revelando o grande músico que seria no futuro.
No ano de 1925, então com 15 anos de idade, quando se aprensentava na Festa da Padroeira da cidade, foi observado pelo regente da Banda de Música da Polícia Militar, maestro João Artur, que, encantado com as qualidades musicais do jovem rapaz, imediatamente procurou o seu pai, solicitando autorização para levá-lo para a capital do Estado, onde, apesar de sua menor idade, seria contratado como arquivista da banda de música.
Na polícia, teve como professores João Artur, João Eduardo, Pedro Rodrigues, José Peregrino e Tonheca Dantas. Esses mestres foram os responsáveis pelo crescimento musical de Joaquim Pereira, que aprendeu executar com perfeição diversos instrumentos musicais, fazendo com que fosse nomeado, com apenas 19 anos de idade, regente da banda de música Tonheca Dantas, tornando-se assim o mais jovem mestre de banda de música militar do Brasil, em toda história.
Durante a sua permanência à frente da banda de música da Polícia Militar, o jovem maestro, compôs dezenas de músicas de vários gêneros, destacando-se, porém, nos dobrados. Sua magistral composição, “Os Flagelados”, foi inspirada nos retirantes da seca, que se postavam defronte ao prédio dos Correios e Telégrafos. A composição, produzida em poucas horas de trabalho, é na verdade um grito de dor e revolta do compositor, indignado com a fome e a miséria que presenciava todos os dias ao se dirigir para o expediente no quartel da Polícia Militar.
O Coronel Otto Feio, então comandante do 22° Batalhão de Caçadores, sediado na capital João Pessoa, ao tomar conhecimento das qualidades musicais de Joaquim, fez gestão, junto ao então interventor da Paraíba, Gratuliano de Brito, para cessão do músico ao Exército Brasileiro. O interventor, após muita resistência, cedeu o mestre de sua banda de música, tendo o mesmo trocado a patente de 3° sargento e mestre da banda de música da polícia, para ingressar no Exército Brasileiro. como soldado músico de primeira classe, pois tinha certeza que com os seus conhecimentos e grande talento, logo se submeteria às provas de sargento músico, o que aconteceu alguns meses depois. Em suas atividades no 22° BC, Joaquim Pereira continuou sua inspirada trajetória como compositor, chegando em pouco tempo, a regente titular da banda de música.
No ano de 1951, ao ser promovido ao posto de 2° tenente músico, o maestro paraibano foi nomeado para dirigir a banda de música da Academia Militar de Agulhas Negras – AMAN, na cidade de Resende, no Rio de Janeiro. Com o novo regente, começaram a chegar pedidos de militares de diversas regiões do País, desejosos de trabalharem sob a batuta do maestro paraibano, cuja fama como músico e compositor, já atravessara fronteiras. Em poucos meses, a Banda de Música da AMAN já estava totalmente reorganizada.
O maestro Joaquim Pereira escreveu, nessa época, o dobrado “Academia Militar”, executado freqüentemente naquela escola de formação de oficiais do Exército. No ano de 1954, saudoso de sua terra natal e com apenas 44 anos de idade, solicitou a sua reforma do Exército Brasileiro, sob protesto de todos os seus superiores hierárquicos e dos seus colegas da banda. Retornou então para a Paraíba, onde se reintegrou as atividades da Orquestra Sinfônica.
No dia 28 de abril de 1993, o maestro Joaquim Pereira nos deixou, tendo a sua morte sido registrada por todos os veículos de comunicação do Estado da Paraíba.

Seção "Grandes Mestres das Bandas": Estevam Pedreira de Moura


Estevam Moura nasceu no dia 3 de agosto de 1907, no arraial de Santo Estevão do Jacuípe, hoje, município de Santo Estevão. Era o quarto dos cinco filhos do comerciante João Pedreira Moura e Maria Minervina Carvalho Moura (Dona Vida), que exercia o ofício de costureira, do qual retirava o sustento dos filhos que criou com dignidade, pois o seu esposo faleceu quando Estevam tinha apenas três anos de idade.

Desde os primeiros anos, Estevam já exibia sinais daquela que seria a sua grande vocação, a música. Era comum vê-lo tocando flautas feitas de galhos de mamoeiro e, mais tarde, descobriu que de um tosco instrumento de origem indígena, fabricado com barro cozido, a flauta ocarina, comumente vendido nas feiras-livres de sua cidade, poderia extrair um som melodioso. Não sabia ele, naquela época, que um dia algum músico criativo e talentoso viria a compor peças musicais com este instrumento. Mas foi com estes mesmos instrumentos que Estevam já mostrava talento e inclinação para a música e, com eles, acompanhava os animados desfiles dos zabumdeiros pelas ruas. Aos sete anos, ingressou na escola pública local, onde se destacou como um dos melhores alunos da classe. Ao perceber a sua forte inclinação para a carreira musical, aliada a uma inegável inteligência e sensibilidade, a sua professora, Dona Francisca Simões, obteve de sua mãe o consentimento para colocá-lo na Filarmônica 26 de dezembro, que estava em formação e da qual ele veio posteriormente a ser o Regente, quando então ele compôs sua primeira obra: "Dobrado para Alício Cerqueira". É bom se ressaltar, que era comum entre os compositores de peças musicais para filarmônicas, e Estevam não fugia a esta regra, homenagear pessoas com seus nomes intitulando estas composições.

Aos 18 anos, Estevam deixava a sua terra natal transferindo-se para a então florescente vila de Bonfim de Feira, convidado pelo Sr. Godofredo Leite, influente pecuarista da região, para reger a Filarmônica Minerva. Lá ele tentaria obter o seu sustento com a música, o que não era nada fácil.

Em Bonfim de Feira, o maestro viveu durante sete anos entremeados de bons e maus momentos. Ali ele fez várias composições, dentre elas o dobrado "VERDE E BRANCO", numa fase de grande inspiração e de decepções, pois foi obrigado a vender várias composições a fim de sobreviver. É possível, portanto, se reconhecer o inconfundível estilo de Estevam em composições que levam o nome de outro que não ele. Foi também no Bonfim que ele conheceu e se apaixonou pela bela Regina Bastos de Carvalho, filha de tradicional família local e que viria a ser a sua grande inspiração. O romance foi bastante tumultuado e digno de texto de folhetim. Os pais e indignados irmãos de Regina jamais admitiriam que esta se unisse a um músico pobre e mulato. Daí vieram então ameaças veladas e explícitas. Diante, entretanto, da residência deste casal que não desistia e insistia neste romance, a radicalização de atitudes se configurou num exílio forçado de Regina que foi enviada temporariamente para uma fazenda de cacau no sul da Bahia, que pertencia a um parente, na esperança de que, com o tempo, esta viesse a se curar deste indesejado amor.

Em vão. No seu retorno, Regina caiu nos braços de Estevam e tudo se reiniciou. Daí, a situação se tornou mais tensa e as ameaças mais freqüentes. Estevam foi mantido quase em prisão domiciliar e antes que os fatos viessem a ter um desfecho trágico, um seu decidido e corajoso amigo, de Santo Estevão, o resgatou levando-o de volta a esta cidade. Um dia, após prévio acerto e na calada da noite, Regina fugiu com o seu amado que veio buscá-la montado a cavalo e levou-a para a fazenda de um outro amigo que os acobertou das perseguições que se seguiram. Este arroubo custou caro a Regina que ao final foi deserdada pela família

Casaram-se em Santo Estevão em 1931 e no ano seguinte nasceu a sua primeira filha, Olga, justamente numa época de grandes dificuldades para toda região que foi assolada pela terrível sêca de 1932. O campo de trabalho para o artista deixou de existir e Estevam, pela segunda e última vez deixou sua terra, desta feita sobrecarregado pelos encargos de família. Foi reger a banda de Afonso Pena, hoje município de Conceição do Almeida, cidade localizada numa das poucas zonas poupadas pelo rigor da estiagem, de onde se transferiu definitivamente para Feira de Santana.

Estevam Moura era um homem de finas maneiras, culto, de fino trato e sensibilidade. Fazia questão de estar sempre impecavelmente bem vestido e elegante, notadamente quando regia a banda envergando vistosos uniformes. Exigia dos componentes a conservação do fardamento e do instrumental bem como a ordem e elegância nos desfiles, antes dos quais fazia rigorosa revista.

Ele tocava todos os instrumentos de sopro, embora tivesse predileção pela flauta. Em pouco tempo solidificou amizades com as pessoas mais influentes da região tornando-se popular e conceituado. Exerceu, enquanto aqui viveu, a regência da filarmônica "25 de março". Foi professor de Música e Canto Orfeônico no Colégio Santanópolis e, fato curioso, dedicou-se ao fabrico de palhetas para instrumentos musicais, feitas de bambu, numa época em que o metal estava muito escasso por ocasião da II Grande Guerra Mundial. Estas palhetas, de meticulosa fabricação artesanal, tiveram grande aceitação, muitas das quais foram exportadas para os EUA, e, auxiliado pela sua filha Olga, tentava a custo de muitas horas de sono, atender aos pedidos que vinham de todo país.

Embora dominasse os instrumentos de sopro, Estevam não escondia o desejo de aprender piano. Foi exatamente uma coincidência feliz que lhe proporcionou a realização daquele sonho. Regente da 25 de Março, ele foi residir na antiga rua Direita, hoje formalmente conhecida como rua Conselheiro Franco. Em frente à sede da Filarmônica Vitória, exatamente ao lado de sua casa, morava a não menos talentosa Georgina Erisman, compositora e pianista, autora do hino à Feira de Santana, da qual Estevam tornou-se grande amigo e aluno, chegando a com ela compor em parceria. Esta foi uma oportunidade de ampliar seus conhecimentos musicais e sua cultura geral, embora, como autodidata, já possuía o maestro vasto cabedal de conhecimentos, graças ao seu gosto pela boa leitura.

A primeira composição de Estevam Moura, de que se tem conhecimento, foi o "Dobrado para Alício Cerqueira", cujo título demonstra o carinho do maestro para com os seus amigos, comportamento esse que jamais se alterou durante toda a sua existência, pois Feira de Santana ele viria a dedicar outras composições a pessoas de sua amizade, a exemplo das peças: "Dobrado Arnold Silva", "Dobrado Irene Silva", este último em homenagem à esposa do seu amigo Joaltino Silva, além de "Tusca", esta talvez a sua mais complexa e elaborada composição, O dobrado "Tusca" foi dedicado ao seu filho, que tinha este apelido e se chamava Ernani, provavelmente uma referencia ao compositor modernista Ernani Braga. A propósito do Movimento Modernista, consta que Estevam durante muito tempo trocou cartas com o grande compositor Heitor Villa-Lobos, e, desta experiência, absorveu novos conhecimentos musicais. Numa época de escassez de 
informações, a Rádio Ministério da Educação que ele ouvia diariamente, lhe trouxe subsídios dos grandes compositores da música erudita para as suas composições. Diante disso, pode-se afirmar que Estevam foi um talento mal aproveitado. Pode-se confirmar isto por uma excursão que a Banda 25 de Março fez ao Rio de Janeiro, onde fez algumas apresentações, quando então ele foi convidado a lá permanecer e desenvolver a sua carreira musical. Mas os apelos de sua família fizeram com que em Feira ele permanecesse.

Vale citar o fato de que em 1978, a TV Globo promoveu um grande concurso musical de bandas filarmônicas, onde a 25 de Março se destacou apresentando composições de Estevam e que injustamente terminou em segundo lugar, quando então maestros de grande renome, como Edino Krieger, Marlos Nobre e Julio Medalha, que compunham a comissão de julgamento, teceram rasgados elogios às composições de Estevam, lamentando a sua morte precoce.

Outras composições famosas do maestro, além das já mencionadas, foram as marchas "Constelação" e "Magnata", e os dobrados "Presidente João Almeida", "Allah" e "Vida e Morte". Mas Estevam não se limitava a compor só marchas e dobrados. Fez também música sacra como tedeums e ave marias, fantasias, marchas carnavalescas e foxes como "Reveillon", "Sonho Azul" e outras. Compôs ainda o Hino do Congresso Eucarístico. Sabendo que não poderia sobreviver apenas da música, Estevam foi também funcionário da Guarda Municipal.

Estevam viveu muitas alegrias, festejado como artista e respeitado como cidadão. Faleceu muito cedo, em 1951, aos quarenta e três anos de idade, vítima de um tumor no estômago. No leito, sentindo a proximidade da morte, ele compôs o seu ultimo dobrado, "O Final"
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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Seção "Grandes Mestres das Bandas": Anacleto Augusto de Medeiros


Exemplo de dedicação e amor a divina arte de Santa Cecília

Anacleto Augusto de Medeiros, nasceu aos 13 dias do mês de julho do ano de 1866, na antiga rua dos Muros (hoje Rua Príncipe Regente) na Ilha de Paquetá, Rio de Janeiro.

Criado no meio humilde onde nascera, nem por isso deixou de tomar conhecimento das grandezas das artes através das histórias contadas pelos mais velhos, das realizações ali programadas em homenagem à Corte e pelos visitantes da Ilha, que falavam o que estava acontecendo artisticamente no continente.

Criança ainda, teve a oportunidade de assistir na própria ilha onde nascera, um concerto instrumental realizado ao ar livre pela Sociedade Musical Paquetaense. Talvez tenha sido esse acontecimento que despertou e revelou sua verdadeira inclinação para a arte musical. O certo é que seu espírito absorveu aquelas melodias, e o fizeram mergulhar em um mundo que somente o artista sente. É um sentimento que só um iluminado por Deus, o Grande Criador do Universo, pode sentir. Tudo viria pouco mais tarde, para surpresa dos moradores da Ilha de Paquetá, no famoso "Te Deum" que compôs.

Daquele momento em diante tornou-se um líder da arte divina, um parceiro de serestas e anfitrião dos colegas e amigos que saíram da ensurdecedora metrópole em busca de uma vida serena e tranqüila, se refugiando também da fase aguda do período político. E a ilha de Paquetá era o refúgio para muitos artistas, o próprio Antônio Carlos Gomes visitou a ilha e elogiou o trabalho de Anacleto de Medeiros, não só pelas inspiradas produções como pela afinação que ele conseguia obter, apesar dos instrumentos serem, em sua maioria, de diversos fabricantes. O Dr. Othon da Costa, presidente da academia Carioca de Letras, diz que a figura de Anacleto de Medeiros marcou vigorosamente a transição para uma nova estrutura, mais evolutiva, do nosso cancioneiro popular. Nessa fase, surgiu a singular e sugestiva personalidade de Catulo da Paixão Cearense, que se ligou muito estreitamente à música de Anacleto.

Com 21 anos de idade formou-se pelo Conservatório de Música, hoje Escola de Música da UFRJ, na classe do prof. Antônio Luiz de Moura, foi colega de classe do maestro Francisco Braga, aluno e amigo do prof. e maestro Henrique de Mesquita apesar dos seus 56 anos.

Para se avaliar em extensão a vida artística de Anacleto, citamos algumas bandas que dirigiu: Banda de música de Magé, Sociedade Recreio Musical Paquetaense, Banda da Fábrica de Tecidos Bangu, Banda da Fábrica de Tecidos de Macacos (atual Paracambi) e outras. Como compositor, produziu centenas de peças como: dobrados, tangos, polcas, valsas, quadrilhas shotes, fantasias, muzucas, obras sacras, etc.

Muitas peças de Anacleto não estão catalogadas, porque naquela época, exista uma prática de homenagear amigos e instituições, e os compositores nem se preocupavam em registrar ou anotar em algum lugar, acredito que muitas peças de Anacleto devem estar espalhadas por esse Brasil afora, como duas peças que estão nos arquivos da Banda Civil Santa Helena de Cabo Frio. Para se ter uma idéia, Ary Vasconcelos em seu livro "Panorama da Música Brasileira na "Belle Epoquê"", revela que, 49 gravações da Casa Edson, todas gravadas pela Banda dos Bombeiros, tem grandes possibilidades de ser de autoria de Anacleto de Medeiros.

Professor de vários instrumentos e maestro disputado para grandes eventos como o que foi publicado no dia 22 de fevereiro de 1895 no jornal "O País": Ao maestro Anacleto de Medeiros é a quem está confiada a direção da maior de todas as bandas, que se pode imaginar; garantimos que em variedades de polcas, valsas etc. ninguém o imitará".

Batista Siqueira atribui ao maestro Anacleto de Medeiros um valor todo especial. Quanto às suas composições, disse que nelas existem mensagens, que como brasileiros, identificamos através dos traços de nacionalismo. Suas idéias são simples, nítidas e até transparentes. Podemos dizer sem medo de errar que Anacleto contribui para a criação do novo gênero da música brasileira, o choro.

Anacleto foi um educador de massas, em uma atividade salutar de criar Bandas e formar novos músicos. Nas suas orquestras Civis também gostava de tocar a clarineta e o saxofone soprano, participava do grupo de chorões que se reunia, no início do século, na loja Cavaquinho de Ouro, com Luiz de Souza (bombeiro), Quincas Laranjeiras, Luiz Gonzaga da Hora, Irineu de Almeida (bombeiro), Juca Kalut, Macário, José Cavaquinho, Albertino Pimentel (bombeiro), LICA (bombeiro), João Ferreira de Almeida (João Mulatinho bombeiro), etc. sem esquecer que Villa-Lobos bem jovem freqüentava o grupo e se tornou amigo de todos, principalmente de Anacleto, inclusive no Choros Nº 10 Villa Lobos usou o tema de "Yara", composição de Anacleto.

Quando foi convocado para ser o maestro da Banda do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal a repercussão na cidade do Rio de Janeiro foi muito grande, porque sem dúvida o Corpo de Bombeiros estava convidando um homem elogiado por todos como um homem de bem, digno, honrado, cumpridor dos seus deveres, maestro, compositor, arranjador, transcritor, e que mudou o estado rudimentar que as bandas se encontravam, dando um novo som, um novo colorido às bandas.

Amou tanto o Corpo de Bombeiros como suas músicas, e ao Corpo de Bombeiros dedicou o dobrado Jubileu, uma das músicas que mais gostava. Achava-a perfeita.

Veio a falecer no dia 14 de agosto de 1907, com apenas 41 anos de idade. Sua morte precoce provocou uma comoção na cidade do Rio de Janeiro. Anacleto partiu há 89 anos, mas sua obra continua e sempre continuará perpetuada por sua querida Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro que tanto amou, e pelos artistas que sabem valorizar a boa música.

"Anacleto Augusto de Medeiros exemplo de dedicação e amor à divina arte de Santa Cecília".


* Extraído do livro "Banda Maravilhosa" de Luiz Viana.

Seção "Grandes Mestres das Bandas": Joaquim Antônio Langsdorf Naegele

HOMENAGEM AO MAESTRO JOAQUIM NAEGELE

A vida do maestro Joaquim Naegele se entrelaça com a história das bandas de música do Estado do Rio de Janeiro e com os mais importantes momentos da trajetória e social do Brasil contemporâneo.

Nascido na então Vila de Santa Rita do Rio Negro, hoje Euclidelândia, em Cantagalo, Estado do Rio, em 02 de junho de 1899, Joaquim Naegele veio a falecer em 03 de março de 1986, transformando-se num símbolo, em exemplo a ser seguido pelas futuras gerações.

Maestro por vinte e cinco anos da Sociedade Musical Beneficente Campesina Friburguense, seu acervo musical e sua batuta foram doados pela família ao maestro Affonso Gonçalves Reis, da Banda Musical do Colégio Salesiano Santa Rosa de Niterói, a quem acompanhou nos últimos tempos.

Suas composições, criadas exclusivamente para bandas de música, integram os acervos de partituras de todo o Brasil e sua lembrança é parte fundamental da memória das bandas centenárias por nós registrada, transcrita no texto a seguir:
"Eu aprendi tudo com Joaquim Naegele (...), foi um grande músico, poeta, jornalista na cidade de Miracema e membro do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, (...) é um grande músico de saudosa memória." (Antonio Batista - 84 anos - SMB Campesina Friburguense)
"Quando conheci Joaquim Naegele, eu tinha uns cinco ou seis anos, ele almoçava no bar de um senhor chamado Barbosa e da Dona Teresa, mulher dele. Eu era pequeno e ele me chamava de "português" : - Português, vem cá, xinga este camarada. Eu xingava todo mundo e aí ele me dava dinheiro. (...) Eu nunca vi na vida uma pessoa que tivesse a amizade que ele tinha aos alunos. A relação dele com os alunos era a melhor possível. Só era uma pessoa muito rígida na hora da aula e dos ensaios; fora disso, era amigo de todo  mundo. Era um homem alegra, formidável neste sentido. (...) Fui aprender flautim com Joaquim Naegele, ele me amarrou o dedo no flautim, porque a pessoa que toca flautim tem que segurar o flautim com o dedo mínimo na chave de ré-bemol. Eu não acostumava com aquilo, aí me amarrou o dedo, eu quis sair e não consegui. Ele não era mole não. Pra ensinar, ele não era brincadeira.(...) Havia um rapaz que se perdia ao marcar compasso. Para ele marcar compasso com o pé, Joaquim Naegele amarrou-lhe o pé ao pé do outro baixista (...) Ele era da ALN (Aliança Nacional Libertadora) e foi membro do Partido Comunista; ele era preso, na época da revolução comunista e durante a ditadura do Getúlio. Numa dessas vezes em que foi preso, ele escreveu o dobrado A Voz do Cárcere e guardou na memória" (Prudêncio Rodrigues Miranda - 69 anos - músico da SMB Campesina Friburguense).
"Ele também jogava futebol e, em 1931, foi técnico do Esperança. Sob a direção dele, era aquela camaradagem que punha nos companheiros. Ele era dinâmico em tudo. Era uma amigo a quem as pessoas tinham vontade de estar ligadas. Eu admirava o Joaquim, era aquela força que ele tinha de vontade de vencer.(...) E ele ainda tinha uma coisa muito importante:ele ainda dividia. (...) Era um homem de uma solidariedade extraordinária, um homem extraordinário.(...) Ele foi um criador e tudo o que se propôs a fazer fez e fez muito bem feito. Foi uma grande pessoa.(...) Ele enriqueceu as bandas militares. Foi muito profissional, isto para a Marinha, Aeronáutica, para os técnicos de Bombeiros e também para as orquestras. Foram muitos músicos. Ele enriqueceu muito e fez a felicidade de muita gente que hoje deve estar, por exemplo, aposentada.(...)"  (José Pereira da Costa Filho - 78 anos - SMB Campesina Friburguense).


"Joaquim Naegele nunca recebeu nada. Foi mestre da banda da Marinha e aposentado nunca recebeu um tostão.E ainda tirava de seu bolso para ajudar alguns músicos e necessitados" (Antonio Jorge Abud - 70 anos - SMB Campesina Friburguense


"Joaquim Naegele teve épocas que fazia da casa dele pensão para músico, dando casa, comida e roupa lavada.(...) Tem que se lembrar mais uma vez desta pessoa dentro da Campesina. Não só fez músicos, mas homens também. Muita coisa que eu aprendi, minha formação , eu agradeço a Joaquim Naegele" (Célio Medeiros Lopes - 64 anos - SMB Campesina Friburguense)


"Joaquim Naegele fazia festa para poder se manter e morreu ganhando salário mínimo.(...) A Campesina deve muito a ele, coisa que não há dinheiro que pague.(...) Ele era pela ideologia política, a banda era muito perseguida, o maestro Naegele, coitado, sofreu pra chuchu". (Luis Gonzaga da Costa Emerick - 56 anos - SMB Campesina Friburguense)


"Compositor brasileiro de banda  que mais marcou, acho que devido aos seus dobrados serem assim, um pouco difíceis e requererem uma técnica muito grande, é Joaquim Naegele ". (Isaias Martins Sila - 29 anos - SM Lira Conspiradora - Campos dos Goytacazes)


"O Senhor Joaquim Naegele era muito claro. Ele dizia: "A minha política é musical. Se eu puder tocar melhor que a Euterpe, eu vou tocar; se eu não puder, "paciência". Tanto que é no Serrano Dançante Clube, na Mimosa Violeta, Seu Joaquim se vestia de mulher e ia brincar lá. Ia dançar lá dentro da Euterpe. Ele fez isso muitas vezes.(...) No concerto do centenário, a Euterpe tocou o dobrado Janjão, de autoria do Naegele. Quando terminou o concerto, ele subiu no palco e foi cumprimentar Carlos Rotay. Isto em público, apertou a mão de Carlos Rotay e disse: "Maestro,realmente eu ouvi o meu dobrado tocado conforme escrevi" (David Paulo - 66 anos - SMB Euterpe Friburguense).


(Obs.: Mais tarde, Joaquim Naegele compôs um dobrado com o nome Carlos Rotay).


Caderno MIS 1 - Memória das Bandas Civis Centenárias do Estado do Rio de Janeiro Rio de Janeiro 1994

Governo do Estado do Rio de Janeiro

Secretaria de Estado de Cultura
Fundação Museu da Imagem e do Som
Departamento Geral de Escola de Arte

domingo, 8 de julho de 2012

“Dois Corações” – O Hino das Bandas, por Alexandre M. L. Barbosa

Pedro da Cruz Salgado é o autor da música “Dois Corações”, o “hino das bandas de música” do Brasil.

A história da composição de “Dois Corações” é antológica. Os anúncios de venda de partituras no Jornal “Luz d’Apparecida” renderam muito trabalho a Pedro Salgado.

Dentre seus principais clientes, estava o senhor João Rodrigues do Carmo e Souza, pessoa ligada à música na cidade de Conceição do Serro, em Minas Gerais.

Como a transação comercial era feita por correio ou telégrafo, João fazia os pedidos de um lado, e Pedro, de outro lado, encaminhava as músicas. Nunca se conheceram pessoalmente, mas a amizade ficou perpetuada numa belíssima peça musical.

João Rodrigues do Carmo e Souza, certa feita, presenteou Pedro Salgado com uma caneta de prata.
Em agradecimento ao amigo, Pedro da Cruz Salgado compôs, em 14 de janeiro de 1920, “Dois Corações”, um dos dobrados militares “mais famosos de todos os tempos” (O Globo, 07/09/1971).

“Dois Corações” foi trilha sonora do filme “Tico-tico no fubá” estrelado pelos premiados atores Anselmo Duarte e Tônia Carrero. Anselmo Duarte foi protagonista de “O Pagador de Promessa” que lhe valeu a “Palma de Ouro”, em Cannes, em 1962.

“Dois Corações” foi música internacionalmente executada em Portugal, Espanha e, até mesmo, na Rádio de Moscou.

Em 1984, o Ministério da Educação e Cultura e a FUNARTE (Fundação Nacional de Arte) desenvolveram, através do Instituto Nacional de Música, o Projeto Pro-memus, com o objetivo de resgatar a memória musical brasileira referente a músicas para bandas no país.

Com “Dois Corações”, as músicas “Brasil Glorioso” e “Saudade de Monte Azul”, compostas pelo maestro, estão incluídas entre as oitenta músicas que compõem o “Repertório de Ouro das Bandas de Música do Brasil”.

Suas maviosas composições renderam-lhe mérito e reconhecimento da parte de importantes instituições ligadas à música e à cultura do país.

  Em 15 de novembro de 1971, recebeu o diploma de Honra ao Mérito do Conselho Estadual de Cultura conferido pelo Conservatório Dramático Musical Dr. Carlos de Campos, da cidade de Tatuí. Durante as festividades da XI Semana de Música recebeu o reconhecimento do governo paulista pelos relevantes serviços prestados à música do Estado de São Paulo. 



No dia do sesquicentenário da independência, o autor de “Dois Corações” recebeu o título de “Correspondente Cultural da Academia Brasileira de Belas Artes”, órgão consultivo do governo federal.

O diploma traz a assinatura do general José Venturelli Sobrinho e concede a honraria “ao maestro Pedro Salgado, conceituado Compositor e Regente Musical, pelo seu mérito artístico e relevantes serviços ao país no ramo da sua ativa especialidade”.

Quando o autor de “Dois Corações”, já em avançada idade, assumiu a regência da Banda Musical de São Caetano do Sul mereceu as seguintes palavras do jornalista J. L. Franco:

“Maestro Pedro Salgado que conhecemos é nome internacional da música popular brasileira (...). Para nós foi uma surpresa muito agradável conhecer o maestro Pedro Salgado que desde menino aprendemos a admirar através das suas composições...” (Jornal de São Caetano).

Dentre as bandas que tocaram Pedro Salgado, um especial destaque para a Banda de Música da Guarda Civil do Estado de São Paulo que produziu vários Long Plays contendo dobrados e valsas do compositor.



Outros dobrados famosos:
Coração de mãe – 1929
Maestro João Massaini – 1942
Aldemar Vidal – 1948
Trabuco – 1956
Arlindo Cocciufo – 1957
Maestro Waldir Rodrigues – 1960
Saudades do Arrozal do Piraí – 1960
J. da Silva Vidal – 1964
Rubens Moraes Sarmento – 1964
Salve Antarctica – 1965
Gloriosa Guarda Civil – 1967
Comendador Jorge Bittar – 1970
Presidente General Médici – 1972

Os títulos dos dobrados geralmente eram nomes de amigos que gozavam do respeito de Pedro Salgado. Uma forma singela de homenagem que ele estendia às mulheres quando intitulava suas valsas. 

Parte original do dobrado "Dois Corações" para Baixo (Tuba) em Mi Bemol:



Seção "Grandes Mestres das Bandas": Pedro da Cruz Salgado (Textos por Alexandre M. L. Barbosa)



Pedro Salgado: o Maestro das Quatro Mil Músicas
Aqueles que se eternizam pela extensão e qualidade de suas obras, esses são os imortais.

Imortais são obstinados. Obstinados reformadores da vida. São originais... são presença do novo que corrompe a monotonia instalada pela irreflexão... transbordam ao mundo porque se preenchem dele.

A imortalidade é um prêmio à vida bem vivida. Uma indelével marca histórica, mesmo que distante da memória de muitos.

Pedro da Cruz Salgado, maestro de alma aparecidense, é um desses espíritos resolutos que se imortalizam na criação.

Sua vasta produção musical, de altíssima qualidade, demonstra um amor esmerado pela arte da composição. Encontrou a beleza na música, como ele próprio afirmava.


O renomado maestro superou as fronteiras do tempo, tornando-se, hoje, presença expandida de sua época. Sua música, duradoura, provoca um atemporal frescor n’alma. Para uns, clama a memória, para outros, pede a sensibilidade.

O maestro Pedro da Cruz Salgado figura entre os maiores compositores de dobrados para bandas de todos os tempos na história da música brasileira.

Perfila com Antonio Francisco Braga, Anacleto de Medeiros, Antonio Carlos Gomes, Francisco José Flores, Joaquim Antônio Naegele, Ernesto Julio Nazareth, Bento Mossurunga, Antônio Pedro Dantas, entre outros, na galeria dos mais expressivos compositores para bandas de música nos séculos XIX e XX.

O amigo e admirador Jorge Frederico Messas Bittar, com elegantes palavras, realça a importância deste grande músico inspirado pela flauta da musa Euterpe:
“Pedro Salgado é uma dessas criaturas originais e raras, e por que não dizer, divinas".

Sua inspiração vem do Alto, pois só assim poderia ele compor as páginas maravilhosas com que enternecem nossos corações e que são as centenas encantando os ouvintes com o seu ritmo gostoso e melodia bem brasileira.

A musicalidade de Pedro Salgado fazia dele “uma usina de inspiração". A sonoridade do mundo orquestrava em seu espírito.

O maestro é de um tempo em que havia tempo de “estar à toa", de ver "a banda” e de “ouvir coisas de amor".

Recuperar a memória deste grande músico de Aparecida é um imperativo ético. Impõe-se como condição para a construção da identidade musical local e nacional.
Uma enorme dívida de reconheci­mento precisa ser paga a Pedra Salgado pela história da música genuina­mente brasileira.

Aparecida e o Brasil precisam recolocar Pedro da Cruz Salgado no lugar de destaque musical do qual jamais deveria ter saído.

Filho de Bibiano da Cruz Salgado e de Dona Augusta Gonçalves Salgado, descendentes de portugueses, Pedro Salgado nasceu na cidade de Arrozal do Piraí, estado do Rio de Ja­neiro, em 13 de agosto de 1890.

Com apenas um ano e meio de idade, Pedro Salgado ficou órfão de pai.

Dona Augusta, mulher simples e carregada de amor aos filhos e fibra para o trabalho, ficou com a árdua tarefa de cuidar dos filhos Pedro e Antonio, o que fez com a tenacidade dos fortes.



Em 1892, porém, diante do agravamento das dificuldades, Dona Augusta, na esperança de dias melhores, mudou-se, com os meninos, para a cidade de Taubaté, importante centro urbano do Vale do Paraíba Paulista e onde residia o seu irmão mais velho. Dois anos mais tarde, transferiu-se para Quiririm, distrito da mesma cidade, a fim de morar com sua mãe, que lá residia.

A convite do Cônego Antonio Marques Henriques, em 1986, o padrasto de Dona Augusta, que era jornalista, transferiu-se com a família para Aparecida e fixou residência na rua Monte Carmelo.

O jornalista atendeu ao pedido do Cônego para ser redator do jornal "Luz D'Apparecida", um periódico de circu­lação semanal e que era um dos mais antigos da região e encontrava proje­ção nacional.

Ainda assim, a situação não ficou mais amena para a família do peque­nino Pedro. Dona Augusta conti­nuou trabalhando, arduamente, cuidando de tarefas domésticas como lavar e passar roupas "pra fora" e fazendo pequenos serviços para a igreja.

Em Aparecida, o menino Pedro Salgado, então com seis anos, encontrou um rico ambiente musical que despertou o seu gosto pela arte e, posteriormente, favoreceu o desenvolvimen­to de seu talento.

Imerso entre músicos de elevada capacidade de composição e execução, Pedro da Cruz Salgado passou a infância ouvindo composições primorosamente executadas por expressi­vos nomes da música local.

Encantado pela música, o humilde menino era presença garantida na audiência das bandas de música da cidade. Junto ao coreto, dificilmente perdia as retretas. A impertinência do petiz acabava sempre por vencer a mãe que acabava cedendo aos insistentes pedidos. Era quase impossível contê-Io em casa quando havia banda na rua.

Não bastasse ouvir, também acompanhava os músicos comprazendo-se com um pequeno mimo: freqüentemente pedia para carregar os instrumentos dos músicos da banda e, geralmente atendido, com galhardia e orgulho os empunhava. Era comum ver o menino perfilado com a banda carregando um piston.


A "música" também soava para a­lém da casa de Pedro quando ele resolvia, com seus colegas, tomar b­nho nas turvas águas do rio Paraíba do Sul. A vizinhança toda podia ouvir a ralhação da mãe acompanhada da percussão do chinelo. Uma sinfonia.

Entretanto, as traquinagens da me­ninice não paravam por aí. Em 1900, com apenas dez anos de idade, liderou um grupo de meninos e formou uma banda de música, se é que pod­ria receber este nome um grupo de moleques marchando pelas ruas de Aparecida soprando instrumentos feitos de talo de folha de mamoeiro, e batendo tampas de caçarolas e panelas.



O Gênio Musical de Pedro Salgado
A genialidade artística de Pedro Salgado começa a manifestar-se quando ainda era jovem. Contava com quinze anos quando o maestro professor Antonio Silva, regente da Corporação Musical "Euterpe Aparecidense”, formava uma banda para jovens e buscava integrantes.

Seu contato com a cartilha musical foi breve. A precocidade do gênio fez com que tocasse as primeiras valsas e dobrados simples em trinta dias. Seu instrumento era o trombone. Porém seu talento já indicava que iria muito além da qualidade de um músico de primorosa execução. Com três meses de aprendizado, apresentou ao professor-maestro o primeiro dobrado de sua lavra “Estrela do Norte". O dobrado foi recebido com surpresa e sa­tisfação pelo mestre e pelos comp­nheiros de banda.

Estimulado por todos, desde então, não mais parou de estudar e compor.
   
Do trombone, logo passou ao piston, bombardino e outros instrumentos de sopro.

Músico virtuoso, certa vez participava de uma apresentação, como pistonista, na cidade de Guaratinguetá, quando, de repente, uma rajada de vento pôs ao chão as partituras dos músicos. Justamente no momento em que havia um solo de piston a ser exe­cutado por Pedro Salgado, mas como ele o sabia de cor, tocou-o por inteiro e em ritmo cadenciado para que hou­vesse tempo dos colegas recolherem suas partes e continuarem a música. E foi o que aconteceu.

Portador de excelente embocadura, o pistonista Pedro Salgado conseguia subtrair do instrumento um som muito próximo ao da requinta.

Em 1915, aos 25 anos, Pedro Salgado formou, com músicos de renome na cidade, a "Corporação Musical São Benedito" que manteve-se ativa por cerca de quinze anos.

Na mesma época, suas composições começavam a ganhar o Brasil. Os anúncios de venda de partituras publicados no jornal "Luz d'Apparecida", um periódico de circulação sema­nal e nacional, fazia com que muitas encomendas começassem a chegar, principalmente de pessoas ligadas a Bandas de Música do estado de Mi­nas Gerais.

Eram diários os pedidos, o que obrigava o maestro a compor ininterruptamente. Ele mesmo dizia: "Às vezes, quando era gráfico em Aparecida do Norte, trabalhava o dia todo e varava a noite estudando e compondo. Faço uma valsa em quinze minutos e um dobrado em três horas. Já fiz mesmo três valsas numa só, a valsa do Vovô Pedro. Pra fazer isso é preciso de muito contraponto. E eu não estudei. Não é mesmo um dom de Deus?"

Alguns relatos de pessoas que co­nheceram o maestro afirmam que ele compunha uma valsa em 4 minutos e um dobrado para catorze instrumentos em três horas e meia.

Pedro Salgado é considerado o "Rei dos Dobrados". Tinha uma predileção pela composição de dobrados e valsas. De suas 1126 músicas catalogadas, mais de quatrocentos são dobrados, quase trezentas são valsas e as demais abrangem uma variedade de hinos, fantasias, marchas, tangos, baiões, maxixes, mazurcas, fox, sambas, boleros, batucadas, polcas, choros, cateretês, rancheiras, etc...

O maestro sempre fez música de uma vez. Não revisava nem passava a limpo. Enviou para os rincões deste país uma apreciável quantidade de músicas sem manter cópias. Estima-se que compôs mais de quatro mil músicas. Ele próprio confirma que se não chegou a isto, esteve próximo.

A Corporação Musical “Aurora Aparecidense", centenária e lamentavelmente inativa, foi regida pelo maestro Pedro Salgado, em 1931, a convite do maestro Benedito Júlio Barreto.

Também foi regente de uma Banda Musical criada e mantida pelo comerciante Pedro Ramos Nogueira. 

Em 1942, aos 52 anos de idade, o maestro das quatro mil músicas transferiu-se de Aparecida, deixando uma profícua obra de aproximadamente duas mil composições.

Residiu por um ano na cidade de Cruzeiro, onde organizou uma banda de Música para crianças.

Em 1944, Pedro Salgado fixou residência na capital paulista. E é em São Paulo que forma amplo círculos de amizades que o torna um dos mais importantes e reconhecidos músicos do Brasil.

Suas músicas tornaram-se presença obrigatória nos programas de rádio dirigidos ao público admirador das retretas. Pedro Salgado passa a ser tocado em todas as rádios do país, em especial, na Rádio Bandeirante e na Rádio Tupy.

4.000 Músicas e a “Batuta de Prata”
Logo que chegou a São Paulo, em 1944, Pedro Salgado foi morar numa modesta casa de uma vila operária e ganhava a vida tocando trombone em um circo.

A situação melhorou quando ingressou, como funcionário público, na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

Tratou rapidamente de tornar-se membro da União Brasileira de Compositores afiliando-se em 02 de janeiro de 1946.

Na Ordem dos Músicos do Brasil, ingressou em 10 de outubro de 1961, recebendo a carteira nº 1280.

Nesta época, suas músicas eram tocadas em grandes e pequenas rádios de todo o Brasil.

O nome de Pedro Salgado ecoava pelos quatro cantos do país e não havia banda que subisse num coreto sem tocar uma composição sua.

Por esta ocasião, o homem de rádio Rubens Moraes Sarmento liderou a iniciativa de, através de seu programa na Rádio Bandeirante, iniciar um movimento nacional conclamando bandas de música do país para contribuírem com a campanha para a confecção de uma "batuta de prata" a ser entregue ao grande maestro brasileiro.

A campanha foi um sucesso. O respeito pelo mestre fez as doações ultrapassarem o valor necessário à confecção do troféu.

Na tarde de 22 de dezembro de 1965, no auditório da Pedreira Morro Grande, o mestre Pedro Salgado, após 60 anos dedicados à música, re­cebe a terceira batuta de prata da his­tória da música brasileira.

As anteriores foram presenteadas a Carlos Gomes e Heitor Villa Lobos.

Confeccionada em prata e ouro, a batuta, conforme informou a Folha de São Paulo (23/12/1965), custou 300 mil cruzeiros.

O maestro também recebeu um cheque de 500 mil cruzeiros que representam a arrecadação que exce­deu o custo da batuta.

Presentes à cerimônia estavam o senhor Paulo Fradique Santana, diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, o capitão Antonio Neves, chefe de Relações Públicas da Força Pública, o tenente José Ferreira de Abreu, mestre da Banda da Força Pública, e muitas autorida­des civis, militares e religiosas.

Thomaz Cruz, proprietário da pedreira Morro Grande, fez um discurso saudando o homenageado.

Em seu discurso de agradecimento, o maestro Pedro Salgado reconheceu a importância do empresário co­mo estimulador da música de banda.

"Cerca de três mil pessoas assis­tiram às solenidades, iniciadas cerca de 16 horas." (Folha de São Paulo, ibidem).

Mesmo após receber tão dignificante homenagem, o maestro das quatro mil músicas conservou a humildade que lhe era peculiar.

Este homem simples, que se espantava diante dos foguetes, da chegada do homem ao espaço e com os avanços da medicina, advertia sobre os riscos que a ganância humana trazia para a humanidade através da guerra e "desses engenhos atômicos” que ele dizia não gostar. Coisas “que nunca pensei que fossem possíveis” diria em uma de suas entrevistas. (cf. Salgado, o humilde das quatro mil músicas).

Com a mesma serenidade, uma vez questionado sobre a qualidade de “A Banda", do compositor Chico Buarque, afirmou: "... é melodicamente boa, mas no ritmo existem alguns defeitos".

Pedro Salgado, em vida, tornou-se nome de uma Lira Musical montada em São Paulo pelo seu grande amigo Rubens Moraes Sarmento.

Com o seu falecimento, em 28 de setembro de 1973, sucedeu que amigos e instituições renderam-lhe as mais diversas homenagem.

Hoje, Maestro Pedro Salgado é nome de rua em Arrozal do Piraí, Monte Azul Paulista, Osasco, Ferraz de Vasconcelos, Pindamonhangaba e São Paulo.